segunda-feira, 10 de julho de 2017

VEJA ISTO!

DEFINITIVAMENTE VOCÊ É CAPAZ

sábado, 13 de maio de 2017

NEGRO CAETANO (SALVE 13 DE MAIO, DIA DOS PRETOS VELHOS)


(Texto: Marcos Ivan de Carvalho)
Negro Caetano derramava suor por todos os lados.
Sua fronte respingava água salgada, fazendo seu rosto brilhar, escorrido, de cara para o sol.
Vigorosas mãos recolhiam do chão as achas de madeira cortada, reduzida a pedaços por seu inexorável e afiado machado “Duas Caras”.
Negro Caetano cantava, enquanto empilhava, num canto do celeiro, aqueles retalhos de eucalipto descascado e ainda trazendo, nas fibras, gotas de seu suor.
Seu canto era mistura de sucessos da música de seresta com recortes de sambas do Paulinho da Viola e, ainda, alguns resgates da Tropicália. Vez ou outro sua herança africana deixava passar alguma cantiga iorubá, saravando os ancestrais. 
Parecia, assim, resgatar a fibra e o valor de seus antepassados, cujo suor muitas vezes era contido de sangue, por conta das chibatas implacáveis dos feitores...
Às vezes Caetano arriscava passear pela seara da Bossa Nova, cantando “olha que coisa mais linda”, como ele dizia, em ritmo bem lento. Aliás, Negro Caetano sussurrava a letra da “Garota de Ipanema” como se fosse uma espécie de oração.
Empilhados os tocos de lenha, o forte homem aproximou-se do poço, pendeu o corpo para frente e, com uma cuia de cabaça, despejou água de poço na nuca e nos pulsos.
Utilizando a mesma cuia, sorveu generosos goles da mesma água de poço, quebrou para trás a aba do chapéu de palha. Assentou-se num toco de árvore, estrategicamente colocado sob a beira da cobertura de sapé do celeiro da chácara.
Sem parar de cantarolar, Negro Caetano se benzeu, orou alguma oração, recitando sonoramente um amém. Ato contínuo levou as mãos para dentro do embornal de pano.
De dois pratos, um emborcado sobre o outro, apareceu seu banquete de almoço: torresmo frio, arroz frio, feijão frio, ovo frito frio.
Porque não gostava de “galfos”, Caetano negro preferia usar colher.
Seus dois tocos de dente, na frente, seguravam as porções do alimento enviando-as imediatamente para a voraz mastigação no fundo da boca.
Entre um bocado e outro, Caetano trabalhador esboçava cantar o “Torresmo à Milanesa”, de Adoniram Barbosa.
As crianças do patrãozinho tentavam compreender as palavras misturadas com mastigação. Esborrachavam-se de rir, com as rimas improvisadas do homem cortador de lenha.
O suado negro trabalhador apreciava ser assistido pelos “toquinhos de gente”. Fora educado pelos pais e pela avó a ser, realmente, educado para com todas as pessoas.
De origens humildes, Negro Caetano havia cursado apenas o primeiro ano, naqueles tempos do grupo escolar. Precisou, logo, botar o pé na estrada, quando os pais o deixaram aos cuidados da avó. Foi a última vez que viu a verdadeira família. Seus pais nunca mais apareceram e Caetano não sabia dizer se estariam vivos.
Banquete de torresmo e ovos deglutido solenemente, o negro de camiseta regata recostou-se na parede do celeiro, passou as mãos sobre a barriga, talvez para limpá-las, fez o “pelo sinal da santa cruz”, agradecendo pelo alimento.
Mergulhou as mãos, novamente, no embornal. De lá saíram duas folhas de palha de milho, um naco de fumo de corda e um canivete com cabo de osso.
Pacientemente, enquanto continuava cantarolando uma mistura de Paulinho da Viola que passou na sua vida mais um pouco da coisa bonita que passa, Caetano fez picadinho do pedaço de fumo, alisou uma tira de palha, enrolando um cigarro.
Um antigo tubo de lança-perfume “Rodouro”, transformado em isqueiro, acendeu-lhe o cigarro de palha. Refestelando-se na grama, Caetano fez desenhos de fumaça no ar, encantando as crianças do patrão.
Estendeu a mão, apanhando do mesmo embornal, um pedaço de folha de jornal, pondo-se a ler em voz alta.
O tanto de notícias despejado no ar, pela incrível capacidade de improviso do suado negro fumante trabalhador, fazia o pequeno toco de jornal parecer verdadeiro caderno de notícias da cidade, de qualquer diário de grande circulação.
Voltando-se para o lado do poente, Negro Caetano esticou o corpo todo, levantou-se, benzendo-se novamente. Afagou a cabeça de cada uma das quatro crianças e voltou ao trabalho.
Cortou quase uns três metros de lenha mais.
Lavou-se com água do mesmo poço; despediu-se do patrão, após pegar os dez reais pelo dia de trabalho.
Tinha motivos de sobra para passar na vendinha do “seu” Ariosto, à beira do caminho, comprar um toquinho de fumo, um pedaço de “mortandela”, cinco ou seis pães emborrachados pelo tempo de espera na cestinha de bambu da venda.
Ia para casa, feliz, para dormir sozinho, acordar sozinho e pensar em tempos melhores.
Sua família, de algum tempo para cá, era só ele, além de Deus. A avó havia morrido meses atrás.
No dia seguinte ao descanso de herói, Negro Caetano, certamente, estaria pronto para mais alguns metros de lenha e para a admiração de outras crianças, de outros patrões, em um dos inúmeros sítios e chácaras para final de semana de quem “pode mais e sua menos”.

Nem por isso a vida, para ele, seria a pior coisa da vida.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

NINGUÉM ESCAPA DELA! (Para refletir muito!)

Veio-me, à lembrança, um dos “causos” contados por um dos muitos Barbeiros da nossa infância.
Naqueles idos, papai nos levava para cortar cabelo “à americana”, estilo USArmy. Só um pouco de cabelos no topo da cabeça e o resto todinho raspado. Era uma medida econômica. Afinal, quatro garotos, aos preços atuais, custariam – no mínimo – R$ 40,00. O Abel Padeiro suava muito para nos dar sustento e conforto de família humilde, honesta. Vamos ao causo:
Dizia o Barbeiro Dito (nome em homenagem a todos quantos “mexeram com nossa cabeça”) que um chefe de estação da Central do Brasil ia contratar um guarda-linhas, aquele cidadão responsável pela sinalização de manobra dos trens e também por impedir o trânsito de pedestres e outros veículos não ferroviários por ocasião das manobras em passagens em nível sem barreiras.
Um dos candidatos era muito amigo do chefe da estação, mas não tinha qualificação para tal serviço. Preocupado em deixar de fora o amigo, o tal chefe criou um teste muito louco.
Questão única:
- Um trem, carregado de explosivos, está no leito principal da ferrovia. Outro trem, de passageiros se aproxima e não vai parar na estação. Vai passar direto, do Rio de Janeiro para São Paulo. O que você faria? 
A Rosinha pode ficar aqui, enquanto eu respondo? 
Pode sim. Até dar alguns palpites. Eu quero ajudar vocês nesta vaga...
Simplesmente eu faria a mudança da chave, desviando o outro trem para a linha secundária.
Não dá, a chave está emperrada e o pessoal não fez a manutenção.
Então acenaria com a bandeirinha, lá bem longe ainda, para o outro trem parar.
Não dá para usar bandeirinha. É noite.
Fácil! Acendo a luz de alerta, ela vai ficar piscando!
Estamos sem a luz de alerta. Queimou e não trocaram...
Pego o lampião de reserva e me arrisco, ficando em cima dos trilhos, acenando para o maquinista...
Impossível! O outro funcionário quebrou o lampião!
Dou um jeito de avisar o pessoal do trem...
Não dá, querido amigo. Ainda não inventaram celular, whatsapp, facebook, tweeter, instagram, essas coisas capazes de roubarem o raciocínio de muita gente...
Um minuto, acho que a Rosinha tem a ferramenta certa.
O chefe amigo dá um tempinho para o amigo candidato à vaga.
Menos de um minuto depois, o amigo do chefe dá a resposta:
- Olha, a gente agradece seu esforço, mas a Rosinha tem razão. Vamos usar a ferramenta dela, correr lá para os lados do topo do morro e ficar lá.
Ué, não entendi, amigo!
 - É que se a gente não for, e você também, vamos estar ferrados. Vai acontecer a maior explosão que Pinda já viu...
 - E quem disse isso?
A Rosinha, com a ferramenta dela.
Qual ferramenta?
Acho que você não conhece, já que nem tem namorada. É a Intuição Feminina. Ninguém escapa dela.
(Cara de paisagem).
Vem com a gente ou vai virar chuva de pedacinhos? “Fumus”!!!!!!!!!!!

Uma homenagem à minha mulher e parceira, dona de senhora Intuição: Edna Maischberger. 


(Texto: Marcos Ivan de Carvalho, publicitário e jornalista independente, Mtb 36001)